Segunda-Feira, 27 de Fevereiro de 2017
Ricardo Hida

London Calling

Ricardo Hida, CEO da Promonde, estreia hoje um espaço no Brasilturis para falar sobre marketing de destinos. Os textos serão publicados no portal, sempre às quartas-feiras

Por Ricardo Hida*

Saiu em várias mídias: o brasileiro escolheu Londres como o primeiro destino no exterior neste final de 2016 e início de 2017. Busquei em vários lugares a fonte da informação e vi que a ViajaNet realizou recentemente um estudo e verificou que 34% de suas buscas apontavam Londres e Santiago como destinos mais procurados no exterior para passagens e hotéis. No caso do Brasil, São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Seguro -efeito Trancoso – lideraram, sem surpresa alguma, o ranking dos turistas.

Obviamente para um estudo mais preciso seria necessário consultar todas as companhias aéreas, operadoras de turismo e agências off-line. No entanto, em conversas informais com amigos, nas redes sociais e nos eventos do trade, pôde-se constatar, de fato, um crescente interesse pela capital britânica neste último ano.

Muitas poderiam ser as razões para justificar essa ascensão de Londres no coração dos brasileiros. A primeira delas é econômica. Embora, em um ano financeiramente complicado, o câmbio tenha sido ainda mais desfavorável para a libra esterlina, Londres apresentou uma série de ofertas em hotéis e restaurantes. E as companhias aéreas também entraram no jogo e baixaram o valor das tarifas para fortalecer a demanda. Da mesma maneira, a gratuidade dos museus foi utilizada de forma sistemática como um vetor de atração de turistas.

A segunda razão, e possivelmente a mais importante, é um trabalho de posicionamento do destino. Há tempos a Grã Bretanha vem se firmando como um destino divertido, vibrante, musical em que a tradição e modernidade convivem com total intimidade.  É sabido que a vida noturna de Paris ou Berlim é mais intensa que a da capital britânica, porém, para a imensa maioria dos brasileiros, Londres é o lugar em que a noite é a melhor da Europa.

Embora Paris seja ainda a capital da moda, a Fashion Week londrina vem se firmando como uma grande reveladora de talentos, com nomes como Vivienne Westwood, John Galliano, Stella McCartney e Alexander McQueen (1969-2010).

Os jogos olímpicos de 2012 foram muito bem aproveitados para fortalecer a imagem de uma cidade vibrante, jovem e cosmopolita. O maior evento esportivo do planeta colaborou para que o atendimento dos britânicos nos hotéis, restaurantes e loja se tornasse mais simpático, porém não menos elegante.

Londres também soube se aproveitar da produção cinematográfica e televisiva. Grandes sucessos como Harry Potter, Downton Abbey, The Crown e Black Mirror, colaboram na divulgação do destino, assim como todas as notícias em torno dos Windsor. Aliás, se há uma monarquia, que sabe capitalizar sua existência é a inglesa. Desde a morte de Lady Di, a família real tem aprendido a lidar melhor com as cultura de massa, com a opinião pública e com as redes sociais. Kate Middleton- independente, inteligente, bela, elegante, pop, sexy e real – talvez seja a síntese da imagem que Grã Bretanha quer passar para o mundo neste novo século.

A gastronomia, sempre um ponto fraco, tem sido tratada de outra maneira. Fora explorados os fenômenos Jamie Olliver e Gordon Ramsay, assim como os chefs Marco Pierre White, Nigella Lawson e Heston Blumenthal. Isso sem mencionar as barracas e restaurantes etíopes, vietnamitas e indianos.

Mesmo o fenômeno Brexit não afetou a imagem junto aos brasileiros. Principalmente quando se pensa na xenofobia de Trump ou nos trágicos atentados na Europa que criaram uma imagem de medo e tristeza no resto do mundo.

Visitei Londres algumas vezes, quando trabalhava para o turismo francês. A responsabilidade de vender Paris nunca me permitiu olhar Londres com total simpatia. Em recente visita a Inglaterra, neste ano, pude olhar para a cidade com mais liberdade. E fiquei apaixonado! A hotelaria design, a gastronomia alternativa do Bourough Market, as lojas do Convent Garden, as exposições dos Tate(s) e a produção cultural do Barbican Center mostram que a cidade é um polo irradiador de criatividade, diversidade e energia.

E, por falar em Barbican Center, se estiver passando por Londres não deixe de visitar a exposição Vulgar. Trata-se de uma das melhores que já vi na vida. A vulgaridade, na moda, nas artes, nas letras é tratada de uma maneira original, intelectualmente refinada e muito inusitada. Uma prova que os ingleses e Londres podem ser tudo – excêntricos, audaciosos, inusitados – mas jamais serão vulgares.

ricardo-hida

 

*Ricardo Hida é formado em administração pela FAAP e pós-graduado em comunicação pela Cásper Líbero. Foi diretor da H&T Eventos, executivo de vendas na Air France-KLM, gerente de marketing na Accor Hospitality e diretor adjunto do Escritório de Turismo da França no Brasil. Atualmente é CEO da Promonde. Dirigiu a comissão de turismo da Britcham e CCFB e foi diretor da ABRAT-GLS entre 2007 e 2009.

 

 

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