Ricardo Hida

Recriar, reinventar, redesenhar

Por Ricardo Hida*

Certa vez, um guru me disse que “toda teoria seria provisória enquanto a vida fosse dinâmica”. Mais que um jogo poético de palavras, havia por trás do mantra  uma grande lição para relacionamentos, carreiras, empresas e destinos turísticos.

Uma multidão aplaudiu a reviravolta que a IBM deu em sua missão empresarial, deixando de fabricar computadores para oferecer soluções em inteligência de negócios. Todos acompanham com curiosidade para onde rumam gigantes da comunicação como a Rede Globo, diante das novas mídias e tecnologias. O que as mídias entregam: audiência, conteúdo, relação de marcas com consumidores? E quais as plataformas utilizadas?

Ninguém quer ser a Olivetti do futuro, que desapareceu porque não percebeu que era preciso mudar. As montadoras de carros ainda não entenderam que que a relação dos indivíduos com os automóveis se transformou. E amargam prejuízos.

A revista VIP, da  Editora Abril, que por décadas colocou em suas capas mulheres deslumbrantes e trazia dicas para melhorar performance na paquera,  estampou Abílio Diniz em sua última edição avisando que a revista mudou. Assim como a relação do homem com a mulher, com sua vida profissional e valores. O próprio Abílio, aos 80 anos, é a personagem em constante mutação.

Quantos de nós ainda continua sendo o que era há alguns anos? Na visão de mundo, no propósito de vida, nos relacionamentos e até no modo de agir e se vestir. Não é à toa que divórcios acontecem com exagerada frequência. Como manter o mesmo olhar e relacionamento com o parceiro de tantos anos, sendo  que ambos mudaram, e muito? Como não reinventar a relação e construir novos objetivos para manter a chama acesa? Divórcio que não é exclusivo na relação de um casal, mas se estende às relações com os empregadores e, no caso dos empreendedores, com seus fornecedores e clientes.

Reinventar-se é fundamental. Grandes grupos como Accor promovem verdadeiras reviravoltas estratégicas, criando negócios que são até difíceis de explicar porque são demasiadamente visionários. A gigante francesa que há alguns anos administrava seus próprios hotéis e tinha uma marca para cada orçamento, mudou todo o seu portfólio com marcas diferentes dentro de uma mesma faixa de preço, vendeu parte de suas propriedades, administra hotéis de outros,  lançou franquias e hoje comercializa hotéis que não estão sequer sob sua gestão.

A Flytour, antes consolidadora, entrou nas viagens corporativas. Virou operadora e, com seu braço Vai Voando, vende viagens para as classes C e D.

Alguns destinos também estão fazendo a lição de casa e buscam um novo posicionamento acompanhado por  estratégias completamente inovadoras. Sobretudo na Ásia e América do Norte.  Impressionante o trabalho que Índia, Nepal, Maldivas e Seychelles vêm fazendo para se projetar internacionalmente.

A maior parte dos países na Europa ainda não se libertou da antiga maneira de pensar, aplicando botox em situações em que cirurgias plásticas profundas acompanhadas de mudanças de alimentação e hábitos seriam essenciais. Usam os mesmos discursos, as mesmas ideias, maquiadas para se comunicar com os novos públicos. E não conseguem bons resultados. O Rio de Janeiro, que não é mais a garota de Ipanema, ainda não se achou e portanto não sabe o que quer ser em um futuro próximo.

Nem mesmo as OTAs, potências da vez, podem se dar o luxo de se acomodar. Como só vender quarto de hotel quando se tem no calcanhar o Airbnb? Elas sabem que em alguma garagem, com uns trocados dos fundos de investimento, jovens geeks podem estar prestes a revolucionar o comércio de hospedagens e lançar uma nova onda no marketing turístico.

Antes se falava que era preciso mudar táticas. Agora se diz que é preciso redesenhar estratégias. Amanhã, no sentido literal, será preciso redefinir propósitos de existência.

Não basta verniz. É preciso revolucionar carreiras, empresas e vidas. Relacionamento com imprensa, clientes, fornecedores. Tudo vai mudar drasticamente. Como você está construindo os próximos anos?  Com fôlego para enfrentar novos concorrentes? Você vai deixar um legado? Ou vai ser mais uma peça provisória e descartável, em uma vida de inevitável transformação?

*Ricardo Hida é formado em administração pela FAAP e pós-graduado em comunicação pela Cásper Líbero. Foi diretor da H&T Eventos, executivo de vendas na Air France-KLM, gerente de marketing na Accor Hospitality e diretor adjunto do Escritório de Turismo da França no Brasil. Atualmente é CEO da Promonde. Contato: ricardo@promonde.com.br 

Clique para comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

 
Topo